“Nada mais que a Igualdade”
17 07 2008“Nada mais que a Igualdade” foi o título da Conferência organizada pela JS e que decorreu ontem na Assembleia da República.
Ficam aqui os artigos publicados hoje, no DN e no Público:
Casamentos ‘gay’ são tema fracturante. .. para o PS
SUSETE FRANCISCO
Conferência. Juventude do PS promoveu ontem um debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma discussão em que ficou claro que esta é uma ideia longe do consenso entre os socialistas. Pedro Zerolo, dirigente do PSOE espanhol e orador convidado, veio dizer que a esquerda tem de “ter valentia”
Deputados reconhecem dificuldades em mudar a lei no Parlamento
Se o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse hoje a votos no Parlamento nem mesmo a maioria socialista teria garantidos os votos suficientes para a fazer aprovar. Um cenário deixado ontem - por socialistas - na conferência internacional “Nada mais que a igualdade - casamento entre pessoas do mesmo sexo”, uma iniciativa da Juventude Socialista (JS), que decorreu na Assembleia da República (AR). Um encontro que contou com a presença de Pedro Zerolo, secretário federal do PSOE para os movimentos sociais.
Zerolo falou na AR enquanto membro do partido do governo espanhol, mas também numa condição impossível em Portugal - homossexual e casado, uma união permitida pela lei espanhola, aprovada por Zapatero. Uma alteração que só foi possível “graças a um primeiro-ministro valente, a um primeiro ministro socialista”, afirmou, antes de defender que a “esquerda é valente ou não é esquerda”.
A frase haveria de servir a alguns dos participantes para questionar o porquê de o PS não avançar com idêntica medida. “Não é fácil”, foi a resposta de vários socialistas presentes.
Foi Pedro Nuno Santos, secretário-geral da JS, a deixar o primeiro sinal das dificuldades em fazer vingar o casamento entre pessoas do mesmo sexo junto das hostes da maioria. “Lamento não ter conseguido esse objectivo”, afirmou o responsável da JS (que deixa o cargo este fim-de-semana) . Ana Catarina Mendes, vice-presidente da bancada parlamentar do PS, acentuou a mesma ideia: “Muitas vezes é difícil conseguir que as nossa lutas e as nossas bandeiras se consigam concretizar nesta casa [na Assembleia da República]”. Mais tarde, e face às intervenções da plateia a lamentar a falta de acção do PS, seria a deputada socialista Maria Antónia Almeida Santos (presente na audiência) a responder: “É preciso ter consciência que estas são, mesmo dentro do PS, questões fracturantes” . “Não é fácil. Apesar de o PS ter maioria não quer dizer que tenha desde já os votos garantidos para aprovar uma lei destas”, acrescentou a parlamentar da maioria.
Se o PS se divide quanto ao casamento homossexual, os cerca de 20 deputados que passaram ontem pela plateia do auditório da AR, que reuniu cerca de meia centena de pessoas, ficaram com a mensagem clara de que as associações e activistas pelo casamento homossexual não aceitarão nada menos que isto. A união civil registada - que consagra os mesmos direitos que o casamento, mas não tem o mesmo nome -, e que reuniria seguramente um maior acordo na AR, está fora de causa. “Seria um insulto”, afirmou Paulo Côrte-Real, da Ilga Portugal. “Um casamento com outro nome é um casamento de segunda, uma forma de desrespeito” , corroborou o antropólogo Miguel Vale de Almeida. Já Isabel Moreira, constitucionalista, defendeu que esta questão não deve depender da vontade de maiorias, dado tratar-se de uma matéria de direitos fundamentais” .
Socialismo e homofobia não casam, diz membro do PSOE
17.07.2008, Sofia Branco
Não se pode ser homófobo, nem machista ou racista, e socialista, disse o secretário federal para os movimentos sociais e as relações com a sociedade civil do Governo espanhol, Pedro Zerolo, que ontem fez uma intervenção na conferência organizada pela Juventude Socialista (JS) sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
De forma apaixonada, Pedro Zerolo, que é também o porta-voz do executivo socialista de José Luis Zapatero, recordou, num auditório da AR, as origens do socialismo e o seu “compromisso” com os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade.
Espanha e Portugal, sublinhou, formam hoje a “esquina socialista” entre os governos “conservadores ou ultraconservadores” da União Europeia. Dadas as “muitas semelhanças” entre as duas sociedades, Zerolo sustenta que, se em Espanha foi possível aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, “em Portugal também será”.
Falta apenas que os partidos se apropriem dos pedidos de mudança que ecoam na sociedade, alertou, desacreditando aqueles que não vêem que “a sociedade portuguesa está plenamente preparada para reconhecer a igualdade aos homens e mulheres homossexuais” . É preciso “valentia”, “mas a esquerda, ou é valente, ou não é esquerda”.
E, querendo contrariar a “baixa auto-estima” da Península Ibérica - “sempre achamos que serão outros a adoptar leis pela igualdade” -, exultou: “Agora somos nós a referência! Espanha ainda não tinha sido a primeira em nada [mas foi] o primeiro país a, numa só legislatura e de uma só vez, reconhecer a plena igualdade” a lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros.
“Não lutamos para casarmos, mas para ver reconhecida a nossa dignidade”, sublinhou Zerolo, precisando que tal significa “os mesmos direitos, os mesmos deveres e com os mesmos nomes” - em reacção àqueles que têm defendido a união civil registada em vez do casamento.
Antes de passar a palavra a Zerolo, o deputado e secretário-geral da Juventude Socialista, Pedro Nuno Santos, desmistificou a “obsessão” da JS com o tema.
“O casamento é dos instrumentos mais importantes e mais eficazes contra a homofobia”, explicou, lamentando não ter assistido a uma transformação nesta legislatura, mas realçando que sempre deu “prioridade a esta bandeira”. A partir de agora, acredita, “será cada vez mais difícil adiar”.
“A esquerda, ou é valente, ou não é esquerda”, disse Pedro Zerolo sobre a “valentia” de reconhecer a igualdade de direitos
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